segunda-feira, 18 de julho de 2011

Os efeitos da acupuntura



Imagine o mundo visto através de lentes coloridas, lentes azuis por exemplo. Seria necessário criar todo uma nova base de conhecimentos a fim de explicar os fenômenos observados através dessas lentes azuis. Mas isto não significaria que estas explicações fossem “erradas”; seriam somente “diferentes”. O mesmo acontece quando se tenta explicar a acupuntura. O máximo que se consegue fazer atualmente é explicar a acupuntura através de mecanismos fisiológicos de ação segundo a ciência ocidental. Não se pode dizer, por exemplo, se o Qi existe ou não, simplesmente pelo fato de que ele não pode ser medido.

Ainda não estão esclarecidos todos os mecanismos de ação da acupuntura segundo a ciência ocidental. Por enquanto, a ciência ocidental consegue explicar alguns “comos”, mas não consegue explicar os “porquês”. Isto criou a falsa noção de que a acupuntura pode ser explicada principalmente pelo “efeito placebo”. No entanto, uma nova visão deste tipo de pesquisa começa a sugerir que aquilo que conhecemos como “efeito placebo” não seria todo o efeito da acupuntura em si, mas parte do efeito esperado da acupuntura.
Basicamente, há dois tipos de explicações para a resposta terapêutica da acupuntura: a “resposta de cura local” e a “resposta trófica”.
A resposta de cura local pode ter uma ação pontual, onde a agulha causa na área da penetração morte celular em níveis mínimos que iniciam um processo inflamatório, aumentando o metabolismo e promovendo a regeneração celular. Ou pode ter uma ação distal, onde a penetração da agulha age sobre o neurônio H da dor referida, o que explicaria os pontos de Alarme usados na acupuntura (também conhecidos como pontos Mo, localizados distantes dos órgãos relacionados e que se tornam dolorosos quando num desequilíbrio destes).
A resposta trófica pode ser explicada por um sistema mais complexo denominado sistema PNIH, ou sistema psico-neuro-imuno-humoral, envolvendo os sistemas nervoso, imune e endócrino. As pesquisas em torno da acupuntura procuram explicar seus fenômenos exatamente através da resposta trófica. Estudos histológicos dos pontos de acupuntura conseguiram demonstrar que eles apresentavam uma concentração fibrilar de neurônios bem característica, uma rede de vasos capilares bem desenvolvida e uma concentração maior de substâncias mucopolissacarídeas, diferente de outras áreas do corpo que não continham pontos de acupuntura mapeados. Tais pontos também apresentaram diferença de impedância elétrica com relação a outras regiões da pele, o que quer dizer que estes pontos resistem de forma diferente à passagem de corrente elétrica. Isto tudo sugere que estas regiões realmente têm capacidade de serem estimuladas e de produzir no corpo respostas que podem ser medidas e percebidas, e que o ponto de acupuntura poderia ser considerado entidade anatômica, ainda que muito discreta.
Resultados de pesquisas básicas, mas bem conduzidas, já esclareceram muitos dos mecanismos de ação de acupuntura, incluindo alterações na função neuroendócrina e a liberação de opióides e outros peptídeos nos sistemas nervosos centra
l e periférico.

Em uma pesquisa com ressonância magnética funcional (também conhecida como PET ou tomografia por emissão de pósitrons), a acupuntura produz efeito na atividade cerebral em áreas previsíveis, relacionadas a pontos específicos. Por exemplo, pontos relacionados à visão estimulam áreas cerebrais visuais, enquanto pontos relacionados à audição estimulam áreas cerebrais auditivas. Já em uma outra pesquisa com PET, a estimulação por acupuntura em um ponto de acupuntura corretamente localizado levou à modulação das atividades corticais da área motora, o que não ocorreu na estimulação falsa. A dor tem circuitos muito complexos e que ainda não explicam completamente seu funcionamento, mas a ação da acupuntura sobre a dor é bem clara.
O estímulo por
acupuntura pode levar o cérebro a produzir o óxido nítrico no núcleo grácil, que desempenha um papel importante na regulação de dor e na homeostase cardiovascular. A analgesia através da acupuntura envolve a estimulação de nervos de pequeno diâmetro e limiar diferenciado que enviam mensagens à
medula espinhal, ativando neurônios do hipotálamo e no tronco cerebral e disparando, assim, mecanismos de substâncias opióides produzidas pelo nosso corpo. Essa resposta também inclui mudanças nos níveis de hormônios como endorfinas e encefalinas, medidos no plasma e no líquido cefalorraquidiano. O aumento de beta-endorfina também foi sugerido para explicar o efeito analgésico da acupuntura, embora isso não explique a ação da acupuntura em outras condições clínicas.
Mas as ações da acupuntura não se limitam à analgesia. As endorfinas citadas anteriormente podem interagir com citocinas, sendo que algumas destas citocinas modulam o componente inflamatório de doenças. Ou seja, dessa forma, o tratamento de algumas destas doenças poderia ser indiretamente explicado pela acupuntura. Outras ações antinflamatórias obtidas pela acupuntura típicas da resposta de cura local são a inibição da permeabilidade vascular, a limitação da aderência leucocitária ao endotélio vascular e a supressão da reação exsudativa. Todos estes efeitos antinflamatórios também poderiam ser obtidos através do uso de fármacos. Os circuitos neurais da dor referida, que incluem o já citado neurônio H, podem ser alguns dos responsáveis por uma complexa regulação das funções de órgãos e vísceras (os sistemas Zang-Fu, na medicina
tradicional chinesa). Estes mesmos circuitos neurais explicariam o raciocínio chinês que diz que os órgãos e vísceras não funcionam de forma isolada e independente, mas de forma integrada e interdependente, reforçando a visão holística de corpo humano. O princípio geral do holismo pode ser resumido por Aristóteles na frase "O inteiro é mais do que a simples soma de suas partes."

Como podemos observar pelas linguagens diferentes usadas pela
medicina tradicional chinesa e pela ciência ocidental, confrontar estas duas ciências de paradigmas completamente diferentes pode não ser uma ação muito feliz. No entanto, cruzar os seus conhecimentos pode ser muito frutífero e trazer benefícios para ambas.

Por Fernando M. Pinheiro

R
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