segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A acupuntura e o tratamento da psoríase

Está claro que muitas doenças consideradas complicadas, de difícil resolução, desacreditadas ou inexplicadas podem ter uma boa resposta com a acupuntura. Como exemplo, apresento aqui o resumo de um estudo de caso de minha paciente tratada por acupuntura, em linguagem acessível.

A paciente, sexo feminino, 69 anos, apresentou os primeiros sintomas de psoríase aos 49 anos, após a morte da mãe e da irmã em um curto período de tempo. Desde então, a doença foi gradativamente piorando, com algumas remissões dos sinais e sintomas, mas sempre esteve presente nos últimos 20 anos, período em que passou por diversos tratamentos sem sucesso, o que contribuiu para a insegurança e a descrença pela acupuntura. A psoríase é uma doença hiperproliferativa crônica da pele, de ordens genética e autoimune, cuja origem ainda não é completamente conhecida pela nossa ciência atual, mas os fatores desencadeantes são geralmente emocionais. Seus principais sinais e sintomas são muita coceira com descamação em várias regiões do corpo, chegando a provocar ferimentos.

Dentre todos os sinais e sintomas, os mais relevantes foram os seguintes. A paciente mostrou-se como uma pessoa triste, mas irritada; falava muito e relatou ter o sono agitado, acordando algumas vezes por noite. Foram detectadas alterações emocionais de longa data (frustração e ressentimento). Apresentava pele seca, olhos vermelhos e lacrimejantes.

O diagnóstico sindrômico segundo a Medicina Tradicional Chinesa foi, resumidamente: Calor no Sangue, estagnação do Qi do Fígado e deficiência de Yin do Rim.
Os princípios de tratamento foram, também resumidamente: esfriar o Sangue, tonificar o Yin, acalmar a Mente, harmonizar o Fígado, esfriar os níveis energéticos Yang Ming e Jue Yin.

A paciente foi submetida a mais de 35 sessões semanais de acupuntura. No entanto, após as 5 primeiras sessões, ela já havia relatado diminuição considerável na coceira e as lesões diminuíram visivelmente. Com o tempo, as lesões sumiram por completo e também foram observadas mudanças no comportamento e no humor. O tratamento foi interrompido a pedido da própria paciente e os resultados foram registrados em fotos, como se vê a seguir.



Por Fernando M. Pinheiro


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Os efeitos da acupuntura



Imagine o mundo visto através de lentes coloridas, lentes azuis por exemplo. Seria necessário criar todo uma nova base de conhecimentos a fim de explicar os fenômenos observados através dessas lentes azuis. Mas isto não significaria que estas explicações fossem “erradas”; seriam somente “diferentes”. O mesmo acontece quando se tenta explicar a acupuntura. O máximo que se consegue fazer atualmente é explicar a acupuntura através de mecanismos fisiológicos de ação segundo a ciência ocidental. Não se pode dizer, por exemplo, se o Qi existe ou não, simplesmente pelo fato de que ele não pode ser medido.

Ainda não estão esclarecidos todos os mecanismos de ação da acupuntura segundo a ciência ocidental. Por enquanto, a ciência ocidental consegue explicar alguns “comos”, mas não consegue explicar os “porquês”. Isto criou a falsa noção de que a acupuntura pode ser explicada principalmente pelo “efeito placebo”. No entanto, uma nova visão deste tipo de pesquisa começa a sugerir que aquilo que conhecemos como “efeito placebo” não seria todo o efeito da acupuntura em si, mas parte do efeito esperado da acupuntura.
Basicamente, há dois tipos de explicações para a resposta terapêutica da acupuntura: a “resposta de cura local” e a “resposta trófica”.
A resposta de cura local pode ter uma ação pontual, onde a agulha causa na área da penetração morte celular em níveis mínimos que iniciam um processo inflamatório, aumentando o metabolismo e promovendo a regeneração celular. Ou pode ter uma ação distal, onde a penetração da agulha age sobre o neurônio H da dor referida, o que explicaria os pontos de Alarme usados na acupuntura (também conhecidos como pontos Mo, localizados distantes dos órgãos relacionados e que se tornam dolorosos quando num desequilíbrio destes).
A resposta trófica pode ser explicada por um sistema mais complexo denominado sistema PNIH, ou sistema psico-neuro-imuno-humoral, envolvendo os sistemas nervoso, imune e endócrino. As pesquisas em torno da acupuntura procuram explicar seus fenômenos exatamente através da resposta trófica. Estudos histológicos dos pontos de acupuntura conseguiram demonstrar que eles apresentavam uma concentração fibrilar de neurônios bem característica, uma rede de vasos capilares bem desenvolvida e uma concentração maior de substâncias mucopolissacarídeas, diferente de outras áreas do corpo que não continham pontos de acupuntura mapeados. Tais pontos também apresentaram diferença de impedância elétrica com relação a outras regiões da pele, o que quer dizer que estes pontos resistem de forma diferente à passagem de corrente elétrica. Isto tudo sugere que estas regiões realmente têm capacidade de serem estimuladas e de produzir no corpo respostas que podem ser medidas e percebidas, e que o ponto de acupuntura poderia ser considerado entidade anatômica, ainda que muito discreta.
Resultados de pesquisas básicas, mas bem conduzidas, já esclareceram muitos dos mecanismos de ação de acupuntura, incluindo alterações na função neuroendócrina e a liberação de opióides e outros peptídeos nos sistemas nervosos centra
l e periférico.

Em uma pesquisa com ressonância magnética funcional (também conhecida como PET ou tomografia por emissão de pósitrons), a acupuntura produz efeito na atividade cerebral em áreas previsíveis, relacionadas a pontos específicos. Por exemplo, pontos relacionados à visão estimulam áreas cerebrais visuais, enquanto pontos relacionados à audição estimulam áreas cerebrais auditivas. Já em uma outra pesquisa com PET, a estimulação por acupuntura em um ponto de acupuntura corretamente localizado levou à modulação das atividades corticais da área motora, o que não ocorreu na estimulação falsa. A dor tem circuitos muito complexos e que ainda não explicam completamente seu funcionamento, mas a ação da acupuntura sobre a dor é bem clara.
O estímulo por
acupuntura pode levar o cérebro a produzir o óxido nítrico no núcleo grácil, que desempenha um papel importante na regulação de dor e na homeostase cardiovascular. A analgesia através da acupuntura envolve a estimulação de nervos de pequeno diâmetro e limiar diferenciado que enviam mensagens à
medula espinhal, ativando neurônios do hipotálamo e no tronco cerebral e disparando, assim, mecanismos de substâncias opióides produzidas pelo nosso corpo. Essa resposta também inclui mudanças nos níveis de hormônios como endorfinas e encefalinas, medidos no plasma e no líquido cefalorraquidiano. O aumento de beta-endorfina também foi sugerido para explicar o efeito analgésico da acupuntura, embora isso não explique a ação da acupuntura em outras condições clínicas.
Mas as ações da acupuntura não se limitam à analgesia. As endorfinas citadas anteriormente podem interagir com citocinas, sendo que algumas destas citocinas modulam o componente inflamatório de doenças. Ou seja, dessa forma, o tratamento de algumas destas doenças poderia ser indiretamente explicado pela acupuntura. Outras ações antinflamatórias obtidas pela acupuntura típicas da resposta de cura local são a inibição da permeabilidade vascular, a limitação da aderência leucocitária ao endotélio vascular e a supressão da reação exsudativa. Todos estes efeitos antinflamatórios também poderiam ser obtidos através do uso de fármacos. Os circuitos neurais da dor referida, que incluem o já citado neurônio H, podem ser alguns dos responsáveis por uma complexa regulação das funções de órgãos e vísceras (os sistemas Zang-Fu, na medicina
tradicional chinesa). Estes mesmos circuitos neurais explicariam o raciocínio chinês que diz que os órgãos e vísceras não funcionam de forma isolada e independente, mas de forma integrada e interdependente, reforçando a visão holística de corpo humano. O princípio geral do holismo pode ser resumido por Aristóteles na frase "O inteiro é mais do que a simples soma de suas partes."

Como podemos observar pelas linguagens diferentes usadas pela
medicina tradicional chinesa e pela ciência ocidental, confrontar estas duas ciências de paradigmas completamente diferentes pode não ser uma ação muito feliz. No entanto, cruzar os seus conhecimentos pode ser muito frutífero e trazer benefícios para ambas.

Por Fernando M. Pinheiro

R
eferências:
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

As agulhas de acupuntura

A acupuntura é uma técnica com cerca de 5.000 anos de idade e os detalhes sobre suas origens perderam-se no tempo. Nesta postagem, eu darei atenção à descrição das agulhas utilizadas desde os seus primórdios até a atualidade, deixando para explorar as explicações modernas do funcionamento da acupuntura numa outra oportunidade.

O desenvolvimento da teoria dos pontos de acupuntura ao longo a história é comprovado por vestígios arqueológicos da Idade da Pedra¹ datados de 10.000 a 5.000 anos chamados pedras Bian, que eram instrumentos pontiagudos de pedra com uma grande variedade de formatos, utilizados para estimular determinados pontos e regiões do corpo a fim de tratar dor e enfermidades.
Mais recentes que as pedras Bian, algumas agulhas eram feitas de lascas de osso cuidadosamente esculpidas e polidas, espinhas de peixe, espinhos vegetais, farpas de bambu e, mais recentemente, na Dinastia Shang (1766 a.C.-1122 a.C.), metal (bronze, ouro, prata e aço). As antigas agulhas metálicas, mesmo sendo um avanço técnico para a época, seriam grossas demais para os nossos critérios atuais. Cada acupunturista possuía seu próprio jogo de agulhas, sempre carregado consigo em uma bolsa ou estojo apropriados para o pronto atendimento. Pelo fato de os médicos chineses da época desconhecerem os perigos de infecções e contaminações, as agulhas eram reutilizadas em todos os pacientes. Há nove tipos de agulhas, descritos na literatura clássica:

A agulha Chan (nº 1), “agulha com ponta de flecha”, é destinada às picadas superficiais, reduz as tumefações da pele e doenças febris. Esta agulha também é usada numa técnica denominada“sangria”, onde se extrai algumas poucas gotas de sangue.

A agulha Yuan (nº 2), de ponta redonda, não é verdadeiramente uma agulha e é usada para a massagem dos músculos.

A agulha Di (nº 3), com extremidade curta e pontuda, é usada para tratar doenças febris e vasculares, deficiência de Qi e dores.

A agulha Feng (nº 4), de ponta triangular, é usada em casos de doenças crônicas. Neste caso, o paciente apresenta um quadro mais antigo, o que se pressupõe uma estimulação mais intensa do ponto através da ponta característica desta agulha.

A agulha Pi (nº 5), “agulha em forma de espada”, é usada para tratar abscessos com pus.

A agulha Yuan Li (nº 6), de extremidade redonda e pontuda, é usada para tratar artralgia e doenças reumáticas.

A agulha filiforme (nº 7) é a mais usada e elimina os fatores patogênicos e a variedade de doenças internas.

A agulha Chang (nº 8), agulha longa, é usada para tratar as artralgias mais profundas do corpo.

A agulha Huo (nº 9), “agulha de fogo”, é usada para tratar a artrite. Por ter um corpo muito comprido, o calor aplicado diretamente no cabo desta agulha propaga-se de forma gradual até o ponto, tonificando-o.

Abaixo, uma foto e um esquema dos nove tipos clássicos de agulhas, de um jogo de agulhas de um acupunturista, datadas da Dinastia Shang (1766 a.C.-1122 a.C.):

Os nove tipos clássicos de agulhas ainda são utilizados atualmente, principalmente na China. No entanto, a agulha filiforme é a agulha mais usada mundialmente, apresentando-se numa variedade tão grande de comprimentos e espessuras que parece originar novos tipos de agulhas. As dimensões da agulha filiforme vão ser definidas pelos objetivos e técnicas usadas no paciente. Como o próprio nome diz, a agulha filiforme assemelha-se a um fino fio de metal.

Com o advento das técnicas de assepsia, começaram a ser usadas as agulhas de aço, que eram reutilizadas através de esterilização em autoclave, sendo descartadas quando suas pontas tornavam-se rombudas demais para a inserção. Assim, cada paciente possuía seu próprio jogo de agulhas, mantidas estéreis dentro de um tubo de ensaio de posse do acupunturista. Com a evolução das técnicas de metalurgia, as agulhas começaram a se tornar muito baratas e uma melhor relação custo x benefício permitiu que fossem produzidas agulhas de uso único, tornando-se muito mais conveniente, seguro e vantajoso descartá-las. Atualmente, a legislação brasileira proíbe a reutilização de agulhas de acupuntura e prevê a forma correta de descarte, bem como as normas de segurança durante o seu manuseio.

Atualmente, as agulhas são produzidas em aço
esterilizado por gás etileno ou raios Gama e vêm em embalagens plásticas normalmente contendo dez unidades ou agulhas individuais, acompanhadas de um tubo aplicador (mandril), numa variedade muito grande de comprimentos e espessuras. As dimensões das agulhas filiformes variam de 0,12 mm a 0,30 mm de espessura e de 2,5 cm a 6 cm de comprimento. Dependendo da técnica e dos objetivos do tratamento, são utilizadas diferentes dimensões. No entanto, até mesmo a menos delgada das agulhas filiformes são finas demais à observação dos olhos humanos: algumas agulhas costumam ser cerca de três vezes mais espessas que um fio de cabelo humano. Na foto abaixo, pode-se ver 20 agulhas filiformes inseridas no orifício de uma agulha hipodérmica.
Costuma-se dizer que não sentimos nada durante a inserção de uma agulha de acupuntura, o que não é uma verdade absoluta e deve ser cuidadosamente discutido.
Em primeiro lugar, cada ponto de acupuntura possui uma sensação característica que pode ser experimentada durante a inserção da agulha ou até mesmo durante a pressão de um dedo. Tais sensações estão descritas de forma clássica em literatura, mas são muito subjetivas e variam em qualidade: queimação, frio, irradiação, “peso”, formigamento, choque, dor etc. Estas sensações são muito sutis, mas também variam em intensidade, o que vai depender do quadro sindrômico do paciente. Em segundo lugar, estamos falando de objetos sendo inseridos no corpo humano. Por mais apurada e indolor que possa ser a técnica de inserção, o paciente sempre sentirá a agulha dentro de seu corpo, não só durante a inserção como também durante a sua manipulação. Portanto, é antiético dizer para o paciente que a acupuntura é uma técnica indolor e/ou que “não se sente nada”.

No entanto, os benefícios que a acupuntura traz para o paciente compensam em muito o desconforto da inserção das agulhas. Ainda assim, no caso de pacientes que não toleram a
inserção de agulhas, há uma série de técnicas da Medicina Chinesa que substituem o uso de agulhas. Estas técnicas possuem efeitos mais lentos e menos intensos, mas são verdadeiramente indolores e serão abordadas posteriormente numa outra postagem.

1:
O intervalo de tempo que abrange a Idade da Pedra é muito discutido e variável segundo a região em questão. Por exemplo, escavações mostraram que enquanto em certos lugares como a Grã-Bretanha vivia-se na Idade da Pedra, em outros, como Roma, Egito e China, já se usavam os metais e conhecia-se a
escrita.

Por Fernando M. Pinheiro

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Meditação como “Prática Integrativa e Complementar de Saúde”

A Resolução n° 380 de 2010 publicada no DOU no dia 11 de novembro de 2010 regulamenta o uso das “Práticas Integrativas e Complementares de Saúde” pelos Fisioterapeutas, desde que comprovada a formação por instituições de ensino superior especialmente credenciadas pelo MEC. Dentre estas práticas são incluídas as “práticas corporais, manuais e meditativas”. Aproveito, então, a publicação da resolução em questão para postar um pequeno fragmento de texto sobre meditação, extraído do livro “Nossa luz interior”, de Jiddu Krishnamurti.

"A meditação não é algo que nós fazemos. A meditação é um movimento que abrange todos os aspectos da nossa vida: como vivemos, como nos comportamos, se sentimos medo, ansiedade, amargura; se estamos continuamente em busca do prazer; se criamos imagens sobre nós mesmos e sobre os outros. Tudo isso faz parte de nossa vida, e compreender a vida com suas várias implicações e ser capaz de libertar-se delas é o propósito da meditação. Precisamos colocar ordem na casa. Nossa casa é o nosso eu.

"Essa ordem não é estabelecida de acordo com um padrão, mas sim, quando nos tornamos conscientes do que é a desordem, do que é a confusão, por que nos contradizemos, por que há uma luta constante entre os opostos e assim por diante. Se não agirmos assim – de verdade, não teoricamente, em nosso cotidiano, em cada momento de nossa vida – , a meditação tornar-se-á mais uma forma de ilusão, uma nova prece, uma outra maneira de desejar alguma coisa.

"O que é o movimento da meditação? Temos de compreender a importância dos sentidos. A maioria das pessoas reage ou age de acordo com as necessidades, exigências e insistências dos nossos sentidos. Estes nunca agem como um todo; holisticamente, nossos sentidos não funcionam nem operam com um todo. Se você se observar e prestar atenção aos seus sentidos, verá que um ou outro se torna dominante e se sobressai em sua vida diária. Portanto, sempre haverá um desequilíbrio entre os outros sentidos.

"O que estamos vendo agora é uma das partes da meditação.
Seria possível os sentidos atuarem como um todo? Você seria capaz de observar o movimento do mar, o brilho da água, sua incansável movimentação, observar toda essa massa de água, apenas com seus sentidos? Ou observar, olhar uma árvore, uma pessoa, um pássaro voando, um riacho, um pôr-do-sol, uma noite de luar, com todos os seus sentidos, completamente acordado? Se a resposta for “sim”, então você descobriu – por si mesmo, não através de mim – que os sentidos não se manifestaram a partir de determinado centro.

"Você está tentando isso enquanto conversamos?

"Olha para sua namorada, seu marido, sua esposa ou para uma árvore com todos os seus sentidos totalmente alertas. Nessa atitude não existem limitações. Experimente e verá. Na maior parte das pessoas, os sentidos estão parcial ou particularmente acionados. Nunca nos movimentamos ou vivemos com todos os nossos sentidos inteiramente despertos ou desabrochados. Colocar os sentidos em seus respectivos lugares não significa suprimi-los, controlá-los, nem mantê-los a distância. Isto é importante, porque se queremos nos aprofundar na meditação, a menos que estejamos conscientes dos nossos sentidos, eles produzirão diferentes formas de neurose, diferentes formas de ilusão; vão dominar nossas emoções. Quando os sentidos se encontram despertos, desabrochados, então nosso corpo aquieta-se por completo. Já observou isso? Muitos de nós forçamos nosso corpo a permanecer quieto, sem se mexer, sem se movimentar, porém, se todos os nossos sentidos estiverem funcionando de maneira saudável, normal e cheios de vitalidade, então nosso corpo relaxa e fica parado.

"Tente fazer isso enquanto conversamos."

Por Fernando M. Pinheiro



sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A história do Método Pilates

Joseph Hubertus Pilates foi o inventor do Método Pilates de condicionamento físico, hoje utilizado no mundo por profissionais de várias áreas de atuação e no Brasil por fisioterapeutas e educadores físicos.

Joseph Pilates nasceu na Alemanha em 1883 com uma saúde frágil, sofrendo já em sua infância de raquitismo, asma e febre reumática. Na adolescência, decidido em modificar a sua saúde, começou a estudar, como autodidata, anatomia, fisiologia e fundamentos de medicina oriental. Assim, desenvolveu princípios de treinamento físico e fundamentou uma série de 34 exercícios chamados “Exercícios Clássicos”. Seu treinamento preconizava a utilização do peso do corpo como resistência, sem utilizar nenhum tipo de acessório, além da expiração abdominal forçada durante a execução de forma a fortalecer o que ele chamava de “power house” (“centro de força”). Joseph Pilates dizia que todo a força dos braços, pernas e coluna partia do “power house”. Além disso, seus exercícios deviam ser executados com extrema concentração. Esses exercícios não eram de fácil execução e, prevendo dificuldades por parte de seus praticantes, ele também desenvolveu aparelhos rústicos e de mecânica simples que tinham por objetivo inicial facilitar a prática dos Exercícios Clássicos. Inclusive, este é um erro comum: achar que os Exercícios Clássicos (conhecidos atualmente como “Mat Pilates” ou “Pilates Solo”) são necessariamente mais fáceis que os exercícios executados nos aparelhos. Com a evolução do praticante, os Exercícios Clássicos podem ser realizados (no aparelho ou no solo) a partir de trechos básicos do exercício original até o Exercício Clássico completo (no aparelho ou no solo). No entanto, dependendo da situação, o exercício pode ser executado no aparelho de forma a dificultar ainda mais o exercício original.


Quando a 1ª Guerra Mundial foi deflagrada, Joseph Pilates estava na Inglaterra e foi mantido preso em um campo de concentração, onde trabalhava na enfermaria e orientava seus pacientes a praticarem seu método. No entanto, ele percebeu que alguns pacientes tinham dificuldades em executar os exercícios. Assim, os aparelhos utilizados no método foram desenvolvidos pelo Joseph Pilates usando materiais de que tinha disposição na época, como grosseiras macas de madeira do inicio do século XX, molas de maquinário pesado, tubulações de água, tiras de couro e cordas. Por essa razão, até hoje os aparelhos do Método Pilates têm uma aparência rústica e mudaram muito pouco ao longo dos anos, mantendo as mesmas características mecânicas.

Durante este período, ocorreu a pandemia de “Gripe Espanhola”, que matou centenas de milhares de pessoas em todo o mundo. Curiosamente, apesar de todas as alas do campo de concentração terem sido atingidas pela gripe, a única ala onde ninguém ficou doente foi a ala onde estavam Joseph Pilates e os pacientes que praticavam o seu método.

Após a experiência com pacientes do campo de concentração, os aparelhos tornaram-se uma obsessão para Joseph Pilates. Paralelamente ao amadurecimento do seu método, ele desenvolveu muitos outros aparelhos, de pequenas engenhocas portáteis a complexas variações daqueles inicialmente projetados. No entanto, apenas alguns aparelhos tornaram-se realmente funcionais e famosos, reunindo muitas qualidades e características num mesmo aparelho. Atualmente, os principais aparelhos são o Step Chair, o Cadillac, o Reformer, o Wall Unit e o Ladder Barrel. Com exceção do Ladder Barrel, todos os aparelhos funcionam com molas. Seguindo a “Lei de Hooke”, lei física que diz que a deformação de uma mola é diretamente proporcional à força nela exercida, quanto mais a mola é distendida durante um determinado exercício, maior é a tensão nela exercida. Assim, os exercícios podem ser executados de acordo com a capacidade e limitações de cada um, ou seja, o praticante realiza o exercício até o ponto em que é capaz, nunca além deste ponto, tornando o impacto articular mínimo e evitando lesões durante uma correta execução do exercício. Desta forma, o Método Pilates pode ser praticado por pessoas saudáveis ou por portadores de alguma disfunção neurológica, ortopédica ou cinesiológica sem o risco de agravamento de seus quadros.
Motivado em superar suas limitações físicas, Joseph Pilates continou a praticar seus exercícios e acabou por desenvolver seu próprio método de condicionamento físico, que visava o controle da mente sobre o movimento do corpo: a Contrologia. Com a prática incessante de seu método, ainda jovem, Joseph Pilates tornou-se apto a praticar várias atividades físicas diferentes como ginástica olímpica, boxe, mergulho e esqui, tendo também a oportunidade de posar como modelo para pôsteres de anatomia. Assim, Joseph Pilates sempre dizia que ele era a prova viva da eficácia de seu método. Ao longo de toda sua vida, Joseph Pilates desenvolveu cerca de 500 exercícios diferentes para os aparelhos, exercícios que o ajudaram, bem como seus praticantes, a levar uma vida saudável. Apesar disso, é importante ressaltar que Joseph Pilates não resumia seu método em uma lista de exercícios padronizados e utilizados igualmente por todos os indivíduos. Joseph Pilates acompanhava pessoalmente seus praticantes e costumava alterar radicalmente seus programas de exercícios diante de necessidades diferentes ou novos objetivos, obedecendo às limitações de cada um. Assim, quando a execução de um programa de exercícios tornava-se fácil, era hora de modificá-lo. Poucas pessoas puderam assistir a todo este processo de trabalho durante a prática do método juntamente com Joseph Pilates. Os poucos que tiveram esse privilégio, fundaram os seus próprios estúdios após a morte de Joseph Pilates e alguns deles até chegaram a declarar a exclusividade da prática do método original. No entanto, nunca existiu um método original específico, mas um método de trabalho próprio de Joseph Pilates, impossível de imitar. Por outro lado, nem mesmo os exercícios criados pelo próprio Joseph Pilates poderiam ser considerados como verdadeiramente originais, pois o método sofria transformações constantemente pelo seu próprio criador. Joseph Pilates não era um purista e teve grandes influências provenientes de métodos como o Yoga, as artes marciais e a meditação. Como exemplo destas influências, podemos destacar o período em que ele se estabeleceu nos Estados Unidos, recebendo bailarinos de várias companhias como alunos. Fascinado pela forma como praticavam seus exercícios, Joseph Pilates incorporou muito do gestual destes alunos e até desenvolveu novos exercícios.

Atualmente, temos vários conceitos terapêuticos e objetos acessórios sendo associados ao Método Pilates de forma bem sucedida, como o Método Bobath e as bolas suíças. Curiosamente, Joseph Pilates não parecia muito interessado em criar uma escola onde seu método fosse ensinado a novos instrutores e, assim, novos estúdios surgissem. Sabedor de sua eficácia, ele parecia mais interessado em propagar o seu método a quem quisesse praticá-lo e a quem quisesse melhorar sua qualidade de vida. A grande prova disso é o fato de ter publicado apenas dois livros em toda a sua vida, sendo que o segundo era uma reedição ampliada do primeiro, onde descrevia apenas os Exercícios Clássicos e relatava a aplicação dos seus conceitos de saúde na vida cotidiana.

Após a 1ª Guerra Mundial, Joseph Pilates começou a trabalhar com seu método na Alemanha, onde foi sendo conhecido e reconhecido pela sua eficácia. Ele foi convidado a trabalhar no treinamento do exército alemão, mas as ideologias sociais e políticas que envolviam tal trabalho desapontaram-no, o que o levou a viajar para os Estados Unidos. Durante a viagem, Joseph Pilates conheceu sua esposa, Clara. Uma vez estabelecidos em Nova York, na Quinta Avenida, eles abriram um estúdio onde Joseph Pilates passou os últimos anos de sua vida, sendo conhecido como uma pessoa de hábitos excêntricos, como realizar corridas usando apenas uma sunga de praia, em pleno inverno novaiorquino. Joseph Pilates morreu em 1967, aos 84 anos, após complicações respiratórias decorrentes de um incêndio que destruiu seu estúdio, após tentar insistentemente salvar alguns de seus equipamentos.

Por Fernando M. Pinheiro
   


terça-feira, 12 de outubro de 2010

O que vem a ser Qi?

Freqüentemente fala-se muito sobre o Qi, seja em termos de Medicina Tradicional Chinesa, seja em termos de treinamento de Kung Fu. Assim sendo, é necessário separar o que é certo e o que é errado com relação ao entendimento de Qi. Inicialmente, não devemos confundir Qi (pronunciado corretamente como “tchi”) com o termo japonês Ki, sendo este originado das artes marciais japonesas. A dificuldade de se interpretar corretamente o significado de Qi reside intimamente na dificuldade da tradução do idioma chinês, onde a tradução literal é sempre difícil. As palavras ou ideogramas orientais evocam idéias (ideograma = “imagem que simboliza uma idéia”). Logo, na formação do ideograma da palavra “Qi”, observamos a composição de dois radicais quer representam “vapor”/“fluxo” e “arroz”/“cereal”. O ideograma final assemelha-se muito a uma panela cozinhando alimento. Pode-se entender o significado deste ideograma como algo que possui um valor muito nutritivo e energético. Ou algo que seja tão material quanto um cereal e ao mesmo tempo tão imaterial quanto o vapor. Ainda, ele pode ser entendido como algo que possui uma energia potencial ou uma determinada capacidade de realizar alguma tarefa (a idéia do vapor do cozimento deslocando a tampa da panela).

Segundo os antigos filósofos chineses, a variedade infinita de fenômenos no universo nos seus mais diversos graus de materialização era o resultado contínuo da agregação e da dispersão do Qi, uma base (material) para a manifestação da vida (imaterial). Esta mesma idéia veio a originar a noção de que vida e morte não são nada em si mesmas, mas versões diferentes de uma mesma coisa.

Já segundo a Medicina Tradicional Chinesa, o corpo humano possui quatro substâncias vitais básicas que participam de seu funcionamento, variando de substâncias completamente imateriais até extremamente rarefeitas. São elas: o Sangue (Xue), a Essência (Jing), os Fluidos Corpóreos (Jin Ye) e, finalmente, o Qi. Assim, pela própria definição, seria muito simplório dizer que o Qi é uma energia, podendo acarretar interpretações erradas; o Qi é uma substância vital, que por sua vez origina as outras três mencionadas, além de suas variações, podendo todas ser mobilizadas, por exemplo, pela acupuntura e pelo Qi Gong (exercícios respiratórios). A dificuldade da tradução de Qi também é explicada pela sua natureza fluida que o leva a assumir diferentes manifestações nas mais variadas situações patológicas ou fisiológicas (rebelião do Qi, deficiência do Qi, estagnação do Qi, dispersão do Qi etc) e regiões do corpo (Zheng Qi = “Qi do Tórax” etc). O conceito da união do Qi da Terra (Qi Telúrico) com o Qi do Céu (Qi Celestial) originando o ser humano somente enfatiza a interação entre o Qi dos seres humanos e o Qi das forças naturais. Assim, a Medicina Tradicional Chinesa leva isto em consideração para determinar a origem de uma doença, bem como seu diagnóstico e seu tratamento.

Há dois aspectos que são bastante relevantes para a Medicina Tradicional Chinesa. Primeiro, quando o Qi não é usado para representar uma substância vital, ele pode representar o uma medida de atividade de um sistema orgânico, o complexo de atividades funcionais de nossos órgãos e vísceras, o que poderia ser comparado ao que é entendido como metabolismo pela medicina ocidental. Segundo, o Qi também é um estado constante de fluxo em níveis variáveis de agregação. Quando o Qi se condensa, a energia se transforma e se acumula numa forma física.

Para complicar a situação, alguns cientistas afirmam que a compreensão adequada de Qi também depende da forma como ela é empregada, não importando em qual área do conhecimento ocorre esta aplicação. Por exemplo, dentro da Física Moderna, o Qi poderia ser simples e realmente compreendido como “energia”, desde que transmitisse a idéia de uma “continuidade da matéria e da energia”, ou, ainda, poderia expressar “emanações radioativas” como conhecemos atualmente.

Alguns atletas praticantes de Kung Fu desenvolvem o controle do Qi em níveis altíssimos, ainda incompreensíveis para a ciência. Existem fraudes, é verdade, mas algumas demonstrações de Qi Gong refletem tal controle com proezas exóticas e perigosas: resistir a armas cortantes e perfurantes e quebrar maciços tijolos de uma só vez. Um bom fluxo de Qi no nosso corpo significa saúde. Obviamente, nós não precisamos realizar aquelas proezas para alcançar uma boa saúde, sendo que um bom fluxo de Qi pode ser obtido através de uma boa alimentação, uma vida emocional sem excessos e atividades físicas saudáveis. Os dois últimos itens podem ser alcançados com a prática do Kung Fu. No entanto, quando há uma disfunção no fluxo de Qi, ocorrem as doenças. Neste caso, recomenda-se a acupuntura, que se resume na inserção de agulhas descartáveis na pele a fim de provocar alterações fisiológicas e energéticas que induzem à uma autorregulação orgânica, recuperando o equilíbrio físico e psíquico de forma natural.

Por Fernando M. Pinheiro
Adaptação do texto original publicado no Boletim Informativo Wah Lum Brasil, nº 5 – Janeiro/Fevereiro de 2008.
Literatura recomendada:
"Fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa" - Giovanni Maciocia

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

E a primavera se aproxima...

O corpo humano reage às mudanças periódicas e aos ciclos do meio ambiente, e reage como um todo. Assim, podemos observar não somente alterações físicas, mas também alterações psíquicas. As estações do ano são ciclos pouco perceptíveis, mas mesmo vivendo numa era de agressões constantes à natureza com alterações drásticas dos seus ciclos naturais (como períodos de estiagem em pleno inverno ou recordes de temperaturas baixas em pleno verão), podemos observar que ainda assim o corpo humano acompanha o ciclo das estações do ano.

Segundo a Medicina Tradicional Chinesa, temos cinco estações, e não quatro como costumamos conhecer! O período de aproximadamente 18 dias que antecedem a mudança de cada estação é conhecido pelos chineses como canícula. Se dividirmos o ano por quatro estações e subtrairmos o período de canícula de cada uma das quatro estações, obtemos aproximadamente uma quinta parte do ano (73,25 dias). Assim, a Medicina Tradicional Chinesa considera a canícula como uma quinta estação que está dividida e distribuída nas outras quatro estações, sendo todas representadas por um elemento ou movimento energético. O outono é representado pelo Metal, o inverno é representado pela Água, a primavera é representada pela Madeira, o verão é representado pelo Fogo e a canícula é representada pela Terra. Didaticamente, a Terra é posicionada antes do Metal e após o Fogo, mas, segundo os textos tradicionais de Medicina Chinesa, o elemento Terra é colocado no centro, entre os outros quatro elementos, representando o eixo, o Estômago e o Baço, ou seja, a fonte de toda nutrição dos outros órgãos e vísceras.

Como já foi dito, a canícula sempre ocorre antes de cada uma das outras quatro estações e representa a mudança de polaridade de um elemento para o outro, ou seja, a mudança gradual das características de uma estação para outra. Ao final de cada estação, durante a canícula, o Qi, ou energia vital, fica exaurido e precisa ser regenerado, retornando ao centro, ao elemento Terra. Por esse motivo, a canícula é um período em que nosso organismo fica tão vulnerável a fatores patogênicos externos e quando devemos tomar certos cuidados para não desenvolvermos doenças ou desequilíbrios próprios de cada época. Por exemplo, antes da chegada do verão, cujo fator climático predominante é o Calor, percebemos muitos casos súbitos de gripes acompanhados de febres em que as vias respiratórias superiores são agredidas. Antes da chegada do outono, cujo fator climático predominante é a Secura, percebemos muitos casos de gripes e resfriados em que todo o trato respiratório é muito agredido pelas mudanças de temperatura e de umidade. Antes da chegada do inverno, cujo fator climático predominante é o Frio, percebemos muitos casos de gripes e resfriados.

Estamos prestes a entrar na primavera, cujo fator climático predominante é o Vento, quando percebemos muitos casos de alergias respiratórias. Nesta estação, é muito comum na Europa a “febre do feno”, um conjunto de alergias causadas pelo pólen de algumas plantas dispersado na atmosfera pelo aumento de temperatura e pelos ventos desta época. No Brasil, este conjunto de reações é conhecido como rinite alérgica. Os órgãos dos sentidos relacionados a esta estação do ano são os olhos, que são facilmente irritados pelos ventos ou atacados por microorganismos disseminados por estes mesmos ventos, causando surtos de conjuntivite. O órgão relacionado à primavera é o Fígado, o que significa que estamos mais suscetíveis a eventos de mau humor por estarmos mais irritadiços, podendo ocorrer acessos de raiva mais frequentemente ou mais facilmente. A primavera simboliza a infância, representada pelo “Yang nascendo do Yin”, quando as sementes germinam, os talos das plantas crescem, a cor predominante é o verde e as flores desabrocham, espalhando seu pólen pelo Vento que nasce no Leste.

No dia 23 de setembro, entraremos na primavera. Isto quer dizer que já estamos na canícula. Vamos nos cuidar! Podemos nos proteger minimizando ou eliminando os efeitos da mudança de cada estação tomando cuidados simples durante este período. Principalmente durante a canícula (quando somos mais suscetíveis às mudanças), mas também durante toda a primavera, devemos evitar a exposição aos ventos, não só os ventos naturais, conhecidos nesta época como “pé-de-vento”, mas também os artificiais, como ventiladores e aparelhos de ar condicionado. Aqueles que já desenvolveram rinite alérgica devem tomar cuidado com os alérgenos inoculados por essas fontes de vento, como poeira, ácaro, mofo, solventes e produtos com cheiro muito ativo. A fim de não sobrecarregar o Fígado, devemos reduzir o consumo de alimentos ácidos, como alho, vinagre, picles, algumas frutas e vinho, assim como os excessos com gorduras e frituras. No aspecto psíquico, recomenda-se meditar, parar para escutar e refletir, evitar discussões, o que será especialmente bom nesta época do ano, para proteger o Fígado.

Por Fernando M. Pinheiro

Literatura recomendada: “Manual do herói” – Sonia Hirsch


sábado, 21 de agosto de 2010

A Dor Crônica

A Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) conceitua “dor” como uma “experiência sensitiva e emocional desagradável decorrente ou descrita em termos de lesões teciduais reais ou potenciais”. Para algumas pessoas essa pode ser uma definição difusa, pouco clara e muito ampla. Mas é exatamente esse caráter abrangente que permite que seja englobada a vivência do indivíduo. A dor é algo real, concreta na medida em que é experimentada, mas é também subjetiva, pois a vivência interna dela e a própria experiência da dor são uma experiência subjetiva e individual.

A dor crônica pode ter inúmeras causas, dentre elas doenças reumáticas, câncer, acidente, LER/DORT (lesão por esforço repetitivo/distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho), processo cirúrgico ou algum outro transtorno que gere efeito no corpo. Doenças crônicas são assim classificadas devido ao período prolongado de tratamento, devido ao tipo de evolução da doença/afecção e/ou às respostas aos tratamentos, geralmente lentas e de efeito aquém do esperado na terapêutica usualmente utilizada.

A definição de dor é mais complexa, ampla e subjetiva. Na atualidade, convive a distinção entre o conceito de dor física e psíquica. O primeiro, bastante difundido e aceito, bem definido pela Neurofisiologia, tratada com a terapêutica médica adequada a cada caso. O segundo, muito pouco compreendido, é pouco estudado e, geralmente, sem tratamento adequado. Além disso, a dor psíquica é vista apenas como uma consequência dos processos das enfermidades físicas. É relevante considerar, ainda, outro viés em relação à dor, que é a “origem da dor” no psíquico. Causas que podem ser chamadas de subjetivas ou pessoais, que com o tempo, com a insistência e repetição de padrões internos (forma como o individuo está estruturado perante o mundo) externos (comportamentos), acabam por se tornar uma enfermidade física.

Para um olhar analítico, não há divisão entre dor física e dor psíquica. Essa ambiguidade que envolve a definição do conceito e o próprio tratamento da dor revela a sua complexidade. Isso exprime a necessidade de centros específicos no tratamento da dor crônica. Se partirmos do pressuposto que o ser humano é um ser multidimensional, então o corpo físico passa a ser um desses níveis, e não o único. Além disso, esses níveis são interligados e se influenciam mutuamente, de forma direta e imediata. Inconsciente e consciente, corpo e psique são dois lados de uma única moeda: o organismo.

Não existe o corpo que sofre, existe um corpo sofrido. É a pessoa que sofre, e ela sofre por inteiro. Um indivíduo que apresenta uma situação de sofrimento, de dor, está imerso em um contexto familiar, social e cultural. Isso configura um quadro em que a dor vivida é modulada conforme a experiência pessoal daquela dor. Ela não é apenas um processo neurofisiológico, mas algo que ultrapassa essa compreensão estrita, e se inscreve no campo existencial.

Por isso, quando nos deparamos com quadros complexos, multifatoriais, torna-se difícil trabalhar se não for levando em conta os tratamentos adequados para cada nível especifico afetado. Nesse contexto, é imprescindível trabalhar com uma equipe multidisciplinar, pois o trabalho com pacientes que sofrem de dor crônica exige uma rede de troca de informações. Por exemplo, nestes casos o psicoterapeuta deve acompanhar o processo não só do próprio tratamento analítico, mas conhecer a evolução dos outros tratamentos, das medicações que o paciente está utilizando e das alterações/ajustes ao longo do percurso. O trabalho deve possibilitar a união de forças para promover um suporte e um direcionamento mais adequado do tratamento. Afinal, estamos lidando com um organismo – corpo e psique – que se encontra em desarmonia, e a dor é um fenômeno que ultrapassa a experiência de um profissional isolado.

No tratamento da dor crônica, a equipe de profissionais engloba diversas áreas especialidade: Clínica da Dor, Psiquiatria, Reumatologia, Neurologia, Neurocirurgia, Ortopedia, Cirurgia de Mão, Cirurgia Buco-maxilo-facial, Acupuntura, Fisioterapia e Psicologia, dentre outras. A equipe trabalha objetivando o controle da dor, a melhora funcional e a ressignificação da dor.

Por Melissa Coutinho
Psicóloga clínica de orientação Lacaniana, especializada em Somatic Experiencing e Psicoterapia Junguiana, membro da equipe de Psicoterapia do Centro Médico de Dor Promédica (Salvador, Bahia)

Trecho de artigo extraído da Revista Psique, ano V, nº 55, 2010.